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Publicado no jornal O Estado de S. Paulo no dia 17 de maio de 2004, página b-2 (caderno de economia)

 

Todos os sabujos do presidente

O GRUPO DE ASSESSORES QUE SE EMPENHOU EM LOUVAR A TOLICE

Por MARCO ANTONIO ROCHA

Ao surgir a notícia, na noitinha de sexta, do desfecho do affair Lula-Rohter, a opinião mais espontânea foi: "Vitória do Lula."
Mas, que vitória? E, para o Brasil, qual vitória?

Uma trapalhada totalmente desnecessária prejudicou enormemente a imagem do governo e, não fossem os bons ofícios do ministro Thomas Bastos, a imagem da jovem democracia brasileira é que teria sido prejudicada, tornando o estrago ainda maior.

Durante uma semana, uma polêmica produzida por pessoas despreparadas para as funções que ocupam criou mais uma atribulação para um governo que iniciou o ano sob os melhores auspícios, inclusive na área econômica. Por isso, é necessário um balanço da tropelia insensata, até como advertência.

Atribulações não têm faltado. Duas das maiores conspurcam dois ativos patrimoniais (e morais) - dois alicerces - do Partido dos Trabalhadores: o da incorruptibilidade e o de campeão dos direitos civis.

O primeiro já vinha sendo arranhado pela investigação não terminada do assassinato de Celso Daniel, mas, depois do tratamento dado por Lula ao caso Waldomiro-Zé Dirceu, uma agência internacional de avaliação de risco diria que esse ativo nunca mais terá possibilidade de galgar o investment grade.

O segundo - o ativo de campeão dos direitos civis - o próprio Lula encarregou-se de tisnar, na semana passada, ao ver na reportagem canhestra, pessimamente fundamentada, motivo para cassação do visto do autor.

"Como se destrói um símbolo?" - perguntava Frei Betto no jornal O Globo, numa tola diatribe contra o NYT. Uma das mais eficientes maneiras é expulsando jornalistas, não é? E quase que Lula embarcou nela...

A pergunta que petistas perplexos fizeram, e talvez ainda façam, é quem teve a infeliz idéia de sugerir ao presidente medida de tamanha insensatez? Ou ainda, quem não teve coragem ou força para desaconselhá-lo?

As atitudes, reações e declarações do próprio Lula, depois do episódio, mostram que não é necessário responder essas indagações. Sendo ele o que é - e o que o jornalista do NY Times talvez não soubesse, por não conhecê-lo bem -, ou seja, um homem extremamente vaidoso, cheio de si, de um lado, e cheio, por outro lado, de preconceitos contra quem quer que tenha estudado e ostente uma formação intelectual esmerada, só podia mesmo partir para a ignorância, como se diz.

Lula não precisou dos conselhos de ninguém. Agiu por conta própria - "aceito todas as conseqüências" e, quanto às críticas, "não passam de corporativismo da imprensa" foram suas palavras.

Mas, recebeu, certamente, o incentivo e os aplausos dos que almejam fortalecer-se politicamente junto ao "chefe", para poder esmagar os inimigos do "círculo" interno. Um fenômeno que nos remete às histórias que líamos sobre a entourage de Stalin.

Um disciplinado apparatchik, André Singer, cumprindo sua função de porta-voz da tolice, apressou-se a assinar um texto, publicado na Folha de S. Paulo, digno, na forma, de Joseph Goebbels: "A liberdade de imprensa não pode servir de pretexto para ser leniente com quem difama, injuria e calunia" - palavras que o chefe da propaganda de Hitler empregava em seus programas de rádio, para instigar o povo alemão contra a imprensa - antes da tomada do poder, porque, depois, já não houve mais imprensa digna deste nome. No conteúdo, se aproximava de Torquemada: "A reportagem foi produzida por um estrangeiro e publicada fora do Brasil, longe, portanto, da competência da Justiça brasileira. Sendo assim, a alternativa compatível com a gravidade do caso foi a de suspender o visto do correspondente para restaurar um ambiente de responsabilidade e respeito no trato dos assuntos públicos brasileiros."

Na parte que grifamos está a ameaça do Torquemada aos jornalistas em geral, brasileiros e estrangeiros. Na frase inicial está a tolice, pois nenhum estrangeiro que trabalhe aqui e nenhuma empresa estrangeira, embora possam estar "longe" da Justiça brasileira, não estão fora da sua alçada, já que há meios e modos de fazer-se cumprir no exterior um julgamento exarado aqui.

Outro denodado "conselheiro", o gauleiter para a área da comunicação, que, com sua barbicha, possivelmente se considera um Rasputin brasileiro, a manejar dos bastidores os cordéis do Poder, atreveu-se a tentar convencer os jornalistas, com argumentos tão tortuosos quanto o velho Caminho do Mar, de que o presidente fez muito bem em tentar expulsar o colega americano do País e que a reportagem era ofensiva a Lula e ao Brasil: "L'État c'est moi!" - ter-lhe-ia dito o presidente Lula? Acho que não...
Do ministro José Dirceu, não se poderia esperar nada mais do que ressentimento contra a imprensa, igual ao que manifesta em relação ao Ministério Público, cada vez que é contrariado ou contraditado.

Quem mais? Ah, sim... "Uma coisa é liberdade total de crítica, como há (sic). Outra coisa é ofender a honra nacional na pessoa do chefe de Estado com uma matéria totalmente inventada e caluniosa. A pessoa não preenche as condições de continuar exercendo sua função de correspondente."

Grifamos a palavra total porque ficou claro que a liberdade de crítica aceita pelo governo não é total. Tem de ser imposta a ele. E quem foi que disse isso? O ministro do Exterior, Celso Amorim, que tomou também a si a pretensão de decidir quem é que, no jornalismo, "preenche as condições de continuar exercendo a sua função", usurpando assim o papel dos editores-chefe das redações.

Esses são os do "núcleo duro". Duro de quê? De cabeça, será? Deve ser. Mas, mais que isso, candidatos a doutor Strangelove, com a diferença que, a cada vicissitude, levantam o braço esquerdo, em vez do direito.

Quem mais? Quem mais aplaudiu? Ah, sim, num primeiro momento, o senador José Sarney, que depois parece ter-se arrependido e tentou convencer Lula a desfazer o malfeito; o ex-presidente Itamar, que veio de Roma e apressou-se a elogiar a medida; e, pasmem, Armando Falcão (alguém se lembra dele?), o homem do famoso "nada a declarar", ministro da Justiça (sic) que nada declarou, nem tinha nada a declarar, quando, durante sua gestão na pasta, em 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado. Saiu do olvido para louvar a truculência daquele que, quatro anos depois, fundaria o Partido dos Trabalhadores.

Dados esses fatos, frases e arrogâncias, pode-se dizer que a intervenção do ministro Bastos foi salvadora: deu a Lula a saída mais honrosa que era possível, não só do imbroglio, mas das garras do "núcleo duro".


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