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Este artigo foi publicado na Gazeta Mercantil, sexta-feira (20/8) na página 4 do Caderno Fim de Semana

 

Michael Moore está chegando...

Imprensa e Estado: a história de um brutal mal-entendido

Por Francisco Viana*

Pense: Como o governo brasileiro reagiria se Michael Moore aportasse em Brasília e fizesse uma versão latina de “fahrenheit 9/11” tendo as trapalhadas dos petistas no poder como tema central da trama? Deixo a questão no ar com todo respeito, a propósito das sucessivas queixas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e alguns dos seus ministros, a começar pelo ministro do Estado e chefe da Casa Civil da Presidência da República a propósito do denuncismo que grassaria hoje na imprensa.

Moore bem que poderia substituir as cenas em que mostra Bush dizendo uma coisa e fazendo outra por imagens que mostrassem o Partido dos Trabalhadores batendo duro no Presidente Fernando Henrique Cardoso e a reação indignada dos dias atuais quando há discordância em torno das suas práticas. Ou, melhor: trazendo à tela as imagens dos idos do regime militar quando a imprensa estendia o tapete vermelho para o atual presidente, protegendo-o e tratando-o como um líder autêntico dos trabalhadores e agora quando as arcas ancestrais do controle da mídia se abrem para liberar um vasto turbilhão de ressentimentos e ameaças veladas.


Horror à verdade

Vista em retrospecto, toda a história das relações entre a imprensa e o Estado tem sido um brutal mal entendido. No alvorecer da República, não havia alternativas: ou se era republicano ou se era monarquista. E aos monarquistas restava apenas o primitivismo do ódio, a força bruta, a violência. Naquele turbilhão de paixões maniqueístas, o massacre de Canudos saturou o ar com uma dupla tragédia: o desastre da ação do exército, alvo de derrotas humilhantes em três expedições e de uma vitória sem glórias na quarta e última campanha, ao lado da morte de centenas de mulheres, velhos e crianças entrincheirados na “tróia de palha”.

O denuncista dessa mancha irreparável, vamos chamá-lo assim, foi Euclides da Cunha, autor de “Os sertões”, que, vale registrar, nos seus artigos como jornalista cedeu à tentação de glorificar os chefes militares.

O governo Vargas bem que tentou dialogar com a imprensa na fase pós-revolução de 30, mas com o Estado Novo logo pendeu para o controle absoluto. A história é conhecida. O famigerado DIP, ligado diretamente ao gabinete do ditador, ambicionava controlar até o ar que os brasileiros respiravam. A imprensa pagou um preço caro pela ingenuidade: o pavor dos comunistas, que dois anos antes da instalação da ditadura, tinham-se levantado em armas, fez com que fechasse os olhos à perda gradativa dos espaços de liberdade. Quando acordou, estava prisioneira dos imperativos do que se chamou de “colaboração construtiva”.

Foram tempos em que os jornalistas eram rotulados de sabotadores, tendenciosos, mercadores de idéias falsas, enfim, inimigos do Brasil. Isso porque muitas vezes se opunham à “unidade ideológica”. O ministro da Educação, Gustavo Capanema, com seu estilo de bucaneiro, dizia não entender como a imprensa, “uma força tão poderosa”, podia pertencer a “industriais e comerciantes, em outros termos, o particular, o que basta para mostrar a constante ameaça de desvio de deveres, da prática da injustiça e da queda no erro, a que está sujeita”.

Isso foi em 1941. Sessenta e três anos depois, o projeto do Conselho Federal de Jornalismo e dos Conselhos Regionais de Jornalismo segue pela mesma trilha pontilhada de fossos de onde se propagam como a peste as sombras do que há de pior na mentalidade de campanário, ao enfatizar a vontade de “orientar, disciplinar e finalizar o exercício da profissão de jornalista, e zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe em todo território nacional”. Como Vargas-Capanema, o governo do presidente Lula, esquece que os maiores perigos estão acondicionados no monopólio da verdade.

Democracia é conflito. Quem pensar diferente, não é democrata. A experiência do ciclo militar demonstra esta constatação de forma inequívoca. Quem olhar pelo retrovisor da história, facilmente poderá fazer o inventário de crimes contra o patrimônio público, contra a vida humana e contra o Estado de Direito que foram cometidos em nome do Monopólio da verdade.

João e Maria

Como os personagens da história infantil, a esquerda de vertente stalinista que se abriga no governo, vai deixando migalhas das suas verdades ideológicas para indicar o caminho de onde pretende chegar. Onde? Ainda que muitos ingenuamente acreditem que a mídia está exagerando, não é a mídia que semeia os tumultos no campo organizados pelo MST, não foi a mídia quem aparelhou o Estado com militantes do partido no poder, não foi a mídia que inventou escândalo Waldomiro, nem o caso dos bingos, nem foi a mídia que inventou o caso das declarações de Imposto de Renda de dois altos dirigentes do banco Central. Os fatos existem. Cabe ao poder público discuti-los. Conquistar a opinião pública com a verdade factual. Dialogar com a mídia para quem aproximar verdades nesse momento de tantas transições da vida brasileira.

Os jornais e os demais meios de comunicação existem porque conquistaram a admiração e a confiança da opinião pública. São parte dos afetos da gente de todas as classes. Não são infalíveis. Mas não podem abrir mão jamais, da independência editorial. Quando erram autocriticam-se . Senão perdem audiência. Na BBC de Londres,a direção foi mudada por que se comprovou que acusou sem provas o governo de mentir no caso das armas de destruição em massa que Saddan teria em seu poder. O mesmo aconteceu há pouco com o New York Times, vítima de um repórter que deveria estar escrevendo romances e não reportagens. A Folha de S. Paulo, há pouco, reconheceu em publico que o problema não está em admitir que errou, mas na rapidez em reparar os erros. É essa a essência de jornalismo: o erro,uma vez identificado, é corrigido.

Uma mídia controlada, disciplinada, vigiada, é uma mídia condenada à morte. Quando isso acontece, a voz da sociedade também morre. E os governos aos poucos vão-se deixando tragar pelo pantanal da corrupção, da arbitrariedade e da perpetuação no poder. Pelos bajuladores, pelos hipócritas. Foi o que aconteceu na Cuba de Fidel. Foi o que aconteceu no Brasil de Vargas e no Brasil dos militares pós-64. Se repetir o erro o governo Lula vai acabar mais cedo, embora possa continuar tendo a ilusão de existir. A eterna ampulheta de busca da liberdade será acionada e, então, o fim – aquele acontecimento visível aos olhos das multidões – passará a ser uma mera questão de tempo cronológico.

Certamente, se Michael Moore viesse fazer um documentário falando de relacionamento do estado com a mídia em mais de um século de República, apenas dois presidentes se renderiam, com humor e espírito democrático às críticas, por mais contundentes que fossem. Um seria Juscelino Kubitschek, o outro Fernando Henrique Cardoso. Ambos foram muitas vezes sitiados pela mídia. Deram a volta por cima. Dialogaram. Ampliaram os espaços de igualdade no relacionamento Estado – sociedade.

A liberdade de imprensa não pode evaporar-se como um fantasma por que ela não existe. Simplesmente. Existe a liberdade da sociedade. E o presidente sabe disso, por que sofreu na carne a mão de ferro da repressão ao organizar as primeiras greves do ABC paulista sob o regime militar. Comparado com a reação do governo à reportagem do jornalista do New York Times que falou do gosto do presidente pela bebida, o episódio do projeto para controle dos jornalistas é tão inofensivo quanto uma gata de sofá.

Fugir da armadilha

Contudo, há um aspecto positivo, e muito, na polêmica em torno do controle da mídia, que tem a sua vanguarda não no projeto dos Conselhos, mas na tentativa de desacreditar o trabalho do jornalista perante a opinião pública com a etiqueta da falta de responsabilidade. Tem razão o grande escritor chileno José Donoso, quando afirma que em 1917 tinha crescido na Rússia o número de pessoas da burguesia e da classe de donos de terras que eram “fervorosos partidários da revolução” leninista e a ajudaram com dinheiro e trabalho.

Não sabiam que em lugar de uma revolução Francesa de 1789, estavam pavimentando o caminho para uma longa noite de autoritarismo. A esquerda moderna, a esquerda verdadeiramente contemporânea, é democrática. Pois mais de que um regime político, a democracia tornou-se um valor universal. O presidente, seu partido e seus aliados não podem permanecer impregnados do passado. Então escrevendo um momento especialíssimo da história brasileira. Cair na armadilha do autoritarismo será um erro irreparável. Ainda é tempo de recuar e entender que o seu governo – sua imagem e reputação – será tão valorizado quanto mais forte for a mídia e a sociedade. Pois a democracia só estará realmente consolidada, quando gente como Moore desfrutar de liberdade de trabalhar sem ir para a cadeia. E acreditem, Michel Moore está chegando. E vem para ficar.

Liberdade, valor universal

Foi entre 1942 e 1945, nos idos nada saudosos do Estado Novo, que o cinema brasileiro começou a perder a guerra para o cinema americano. Em “O Estado contra os meios de comunicação”, José Inácio de Melo Souza, autor de um estudo minucioso que precisa ser lido e relido, conta que a produção nacional, àquela época, “calculada sobre a metragem apresentada à censura não ocupava mais do que 13%¨em média do mercado, tendo o cinema norte-americano tomado para si 80% sobre o total”.

Também não se pode esquecer que a era de esplendor do cinema brasileiro data de um período de absoluta liberdade – os anos JK, quando Nélson Pereira dos Santos e Gláuber Rocha modelaram o cinema Novo. Não tem sido diferente na última década. O ambiente de liberdade renovou o cinema, o teatro, a literatura, a música, levando-os a conquistar posições inclusive internacionais.

Esse retrato comparativo entre os tempos de controle e censura do cinema – e da cultura, no conjunto – mostra o quanto encontra-se fora do lugar a idéia da Agência Nacional de Cinema e Audiovisual (Ancinav). No papel, as intenções podem ser cândidas e mesmo positivas (“Não houve e não haverá imposições de qualquer ordem“, no dizer do ministro Gilberto Gil). Na prática, a teoria é outra, mesmo que tudo se possa soar autoritário seja expurgado.
(*) Jornalista, co-autor do livro “Prestes: Lutas e Autocríticas” e autor do livro “De Cara com a Mídia”


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