Agentes de imprensa que conheci
-
Groucho Marx
O pequeno subiu no meu colo e gentilmente me puxou
pela barba: - Me conte, Vovô, sobre seu primeiro agente de
imprensa.
Eu olhei para o fogo. Sem saber, a criança tinha tocado
em um ponto muito delicado. Fazia anos que eu nem pensava mais no
acontecido. Mas ali, algo mexeu comigo. Meu corpo parecia em brasa,
e eu jurei perceber um leve aroma de jacinto. Ah, a juventude! Aquelas
noites ao luar, as primeiras entrevistas, aquelas cenas apaixonadas,
e aquelas notas! Aquelas notas!
Groucho Marx, um integrante dos Quatro Marx Brothers, passa seu
tempo livre colecionando cachimbos. Ele agora tem 762 cachimbos
de todos os tamanhos e variedades. Quando questionado sobre seu
hobby, o Sr. Marx disse gentilmente, com um brilho no olhar: “Sim,
eu coleciono cachimbos. Deixe-me te mostrar um exemplar raro de
um cachimbo de chumbo.” (do Spokane Spokesman)
Eu sou uma autoridade em agentes de imprensa. Assim que terminar
meu opus atual “Meus 50 anos nos palcos americanos”,
ou “De Weber e Fields para um asilo”, pretendo escrever
o há muito aguardado tratado “Agentes de imprensa que
conheci, e me arrependi”. Estas breves notas comporão
minha introdução:
Primeiro, existe o agente dublê, aquele que surge no seu camarim,
todo sorrisos e pergunta: “O que você vai fazer amanhã
à tarde?”
“Limpar a minha caixa d’água”, digo –
e toda a esperança já foi.
“Oh, não, não vai”, ele insiste animado.
“Você vai subir no mastro da bandeira do Edifício
Paramount, com uma placa nas costas dizendo: “Olá,
Marte! Os Quatro Marx Brothers, estrelando Animal Crackers, mandam
lembranças.”
“Mas meu lumbago...”
“Suba mais alto!”, eles me
dizem. “Você não pode fazer melhor do que
isso? Isso dará uma foto horrível!” |
“Já está tudo acertado. Teremos 14 repórteres,
uma penca de câmeras e as agências internacionais. Será
um furo mundial e terá grande repercussão para o show.”
Isso sempre me pega. Eu não sei como, depois de todos estes
anos, mas pega... Depois de passar pela vertigem de chegar ao topo
do Edifício Paramount, descubro que os repórteres
foram chamados para cobrir um incêndio em outra vizinhança.
E a penca de fotógrafos consiste de dois sujeitos contrariados,
um tanto entediados com todo o processo. “Suba mais alto!”,
eles me dizem. “Você não pode fazer melhor do
que isso? Isso dará uma foto horrível!”
Eles provavelmente imaginam que se eu subir um pouco mais, não
precisarão nem usar suas chapas. Mas estão certos
em uma coisa: a foto é mesmo horrível. Duas semanas
depois o agente surge no camarim brandindo a evidência de
sua genialidade. A foto publicada na página 34 da Billboard
(é assim que ela atravessa o mundo). A legenda diz:
Subiu no mastro
G. Merks, dos Três Merks Brothers, acrobatas do vaudeville,
subiu no mastro do Edifício Paramount no mês passado
para pagar uma aposta eleitoral.
Vamos considerar outros espécimes: o agente de imprensa que
fica telefonando: “Espere até eu te mostrar o que consegui!
Artigos em sete jornais, todos diferentes!”
E são. Ele finalmente aparece para mostrar as matérias:
“Les frères Marx, maintenant”, é tudo
que consigo ler. Está no Paris Matin. Depois: “Die
Marx Brüder”, no Berlim Tageblatt. E por aí vamos
conseguindo uma bela divulgação em alguns dos principais
jornais do mundo, incluindo o Stockholm Svenborgen e o Riga Raschgitov.
Belos artiguetes para colecionar e ler diante de uma lareira em
uma noite chuvosa.
Depois vem o agente de imprensa de sobrancelhas altas que passa
semanas me entrevistando. Ele me aperta por horas seguidas para
me perguntar coisas como. “Mas, Sr. Marx, o Sr. não
acredita que Pinero foi sem dúvida influenciado pela obra
de Aeschylus?” Fico em choque quando ele me diz que emplacou
a entrevista. É publicada em Dial, que circula mensalmente
e é uma maravilha para os negócios.
E tem também aquele que foi agente de imprensa para o circo
e não consegue se desvencilhar de suas raízes. É
um tipo perigoso. Não há tempo ruim para ele te levar
ao Central Park para ser fotografado com os animais. Depois de arriscar
minha vida tentando aparecer como se estivesse ensinando um hipopótamo
a cantar (o agente habilmente o fazia abrir a boca mostrando-lhe
um sanduíche do outro lado da cerca), foi o animal quem levou
os créditos. A foto mostrou o hipopótamo em sete-oitavos
de sua área e eu parecia um sanduíche no canto. A
legenda:
Charlie, o hipopótamo do Central Park, recebe os parabéns
pelo seu terceiro aniversário. A foto mostra Charlie sendo
cumprimentado por um de seus admiradores, um conhecido palhaço
da Broadway.
E aí vem o agente que tenta me convencer a fazer seu trabalho.
“Sr. Marx, eu poderia emplacar matérias sobre o senhor
em qualquer jornal em Nova York, mas reconheço que não
sou capaz de escrever tão bem quanto o senhor. Então
por que o senhor não escreve um daqueles artigos brilhantes
para o Times, uma boa autobiografia para o Sun e uma daquelas sátiras
arrasadoras para o The American? Eu mesmo me encarrego de levá-las
aos jornais.”
Me recordo de um agente que me ligou esfuziante sobre uma matéria
que ele emplacara no Tribune. “Como ficou?” Ele finalmente
manda uma cópia. A matéria é a seguinte:
Entre aqueles presentes ao baile do Mayfair Club, no Ritz, na noite
de sábado, estavam Eddie Cantor, Mary Eaton, Gertrude Lawrence,
Beatrice Lillie, Walter Woolf, Peaches Browning, Ethel Barrymore,
Will Rogers, Leonore Ulric, Alice Brady, Katharine Cornell, Tammany
Young e um dos Marx Brothers.
Mas eu nunca vou me esquecer do agente que era especialista em
conseguir uma ótima divulgação. Para ele mesmo.
Depois de muito enaltecer uma entrevista comigo ele havia publicado,
eu li a peça:
Eu admito que estava terrivelmente excitado quando toquei a campainha
do Sr. Marx, pronto para entrevistá-lo. Meu coração
batia freneticamente e me vinham as lembranças das conversas
com Otis Skinner, meu tete-a-tete com Pavlova e meu franco diálogo
com Doug Fairbanks.
Então entrei pisando com firmeza. O Sr. Marx me recebeu cordialmente
e, depois de me oferecer um assento, admirou minha gravata. “Eu
sempre a uso quando entrevisto uma celebridade”, observei,
para deixá-lo mais à vontade. “Vou te contar
uma história interessante sobre esta gravata...”
E assim por mais duas colunas sobre este rapaz fascinante, Alan
J.Wurtzburger.
Todos estes agentes são extremamente deprimentes, mas nada
comparado ao que tive na primavera passada. Ele vivia no meu camarim,
fumando meus charutos e me dando dicas de investimentos no mercado
de ações. A única coisa pior que meus charutos
eram suas dicas. Ele é a razão de eu ter sido obrigado
a passar as férias de verão entretendo platéias
nos teatros.
Talvez eu seja um otimista incurável, mas eu ainda procuro
um agente de imprensa que vai me conseguir alguma divulgação
sem me fazer patinar pela Broadway para demonstrar que um ator contorna
o problema do tráfego ao patinar para o trabalho. Eu quero
um agente de imprensa como o do Hoover. Vejam tudo que este cidadão
emplacou durante as eleições. E aposto que o Hoover
nem subiu no mastro da bandeira.
Press
Agents I have Known, crônica publicada na The New Yorker,
em 9 de março de 1929, época em que os Irmãos
Marx faziam jornada dupla gravando seu primeiro filme, The Cocanuts,
no Queens, e encenando Animal Crackers, na Boadway. Tradução
feita a partir do livro Groucho Marx and other short stories and
tall tales, Ed. Faber & Faber
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