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| Foto:
Gianfranco Betting (www.jetsite.com.br) |
Poltrona do meio da classe turística de
um apertado 707 da Varig. O corpo triturado por uma noite mal dormida.
A secura da boca e a ressaca do novo. Que delícia. Ceu azul,
razão de descida rápida, curva a esquerda, flaps 11,
21, trem de pouso baixado, travado, flaps 26. Lá em baixo
um presépio. Casas arrumadinhas, perfiladas em ruazinhas
limpas e bem traçadas. Long Island amanhecia preguiçosa
naquela manhã de sábado quase primaveril. Era exatamente
11de abril de 1964.
No solo às 6.15 a.m. - livre taxi desembarque
internacional. O contato com os brasileiros ia terminar. Vamos nos
ver. Troca de telefones, promessas mis, apareça lá
em casa. Os lugares comuns do povo cordial. Reatores desligados.
Lá fora a cena era a mascação de chicle‚
com bafo de fumaça por causa do ar frio. Motoristas dos tratores,
auxiliares, mecânicos, toca a exercitar as mandíbulas,
nham, nham, nham, nham. Aqui dentro, uma zelosa funcionária
da saúde pública percorria o corredor aspergindo o
que me pareceu um inseticida contra passageiros oriundos de repúblicas
de banana. Sorridente despejava good mornings a torto e a direito,
o que levou uma chistosa senhora americana a constatar: ela só
veio dar bom dia a todos...
Estávamos liberados para descer. Sim, descer,
pois não havia ainda fingers para todo mundo. Brrrrrr. Que
frio. A sensação era a de se entrar numa câmara
frigorífica. Mas logo veio o aconchego dos longos corredores
devidamente aquecidos por onde chegaríamos ao saguão
da burocracia de praxe. No caminho, mais praticantes de exercícios
mandibulares: nham, nham ,nham. Haja chiclete.
Controle de passaportes para mostrar com orgulho
o "green card" recentemente conquistado. Tudo fácil,
pois os inspetores também entoavam o nham nham nham dos Wrigley's
da vida. Alfândega. Adivinha o que eu trazia ? Goiabada, lógico.
O que é isto ? Ai,ai,ai, como vou explicar? O melhor que
saiu foi um desajeitado " ... a type of Brazilian candy, er...,
sweet stuff you know ?". Fui convincente. "OK, move on"...
Mais um brazuca chegando… "Big Apple"
Noviorque, rumo ao meio-oeste. Indiana here I come...
Conhecendo a Greyhound –
Port Authority
De avião não tem a menor graça.
Por isso, e principalmente por falta de numerário, tive de
pegar o velho e tradicional Greyhound, a "Cometa" dos
EUA, rumo à Indianápolis, Indiana... Os ônibus
saem da PortAuthority, uma baita estação rodoviária
incrustrada em midtown Noviorque. O roteiro com 21 horas de viagem
pela frente, incluía muitas paradas. Aí é que
se começa a observar as diferenças culturais de um
país. Ônibus super confortável, ar condicionado,
aquecimento, motorista afável e, “guess what ?”
mascando chiclé naturamente‚.
Primeira parada: Filadelfia, apenas uma hora e
pouco de NYC. Bar de rodoviária, e eu com uma baita fome
pois já passava e muito da hora do almoço. A pronúncia
mais fácil era pedir logo um hot dog, então, vamos
lá. Primeira preocupação: não voltar
para o ônibus errado pois eram todos absolutamente iguais.
Lembrei-me então que o destino final do meu ônibus
era Saint Louis. Primeira descoberta: os ônibus nos EUA são
usados para viagens curtas. O passageiro ao meu lado de NYC a Fila
já não estava no ônibus no trecho seguinte,
e assim em quase todas as paradas.
Próxima parada: Pittsburgh. Primeiro “fora”.
Vou comer sentado agora. Sentei-me esperando um garçon, garçonete,
o que for. Após longos e angustiantes 120 segundos veio uma
boa alma e disse: - “Senhor, aqui é uma cafeteria,
you have to help yourself...” Corado de vergonha, achando
que todo mundo estava me olhando, fui para a fila e ensaiei uma
mudança de menu: “ a amboorger please”... “Beg
your pardon “? “amboorger please”… Vendo
que o gajo não iria entender mesmo, sapequei de volta o velho
“hot dog”. Frustração… Teria que
falar “a rembârguer please”...
Pennsylvania Turnpike e várias paradas rodoviárias.
Em todas elas ia ligando a cobrar para meus anfitriões que
iriam me buscar na rodoviária de Indianápolis. A dificuldade
era entender o que a operadora falava do lado de lá... As
primeiras conversas telefônicas foram bastante difíceis.
De todo modo à noite consegui falar com Bloomington, Indiana,
que viria a ser minha cidade nos próximos 5 anos !
(*) Sócio-Gerente
da Allcomm Partners que viajou pela primeira vez aos EUA em pleno
golpe de 64, aos 19 anos.
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