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Happy Hour na AllComm Partners: aqui se fala de tudo menos o trabalho

Happy Hour | Março de 2005

 

Ontem

Mário S. Viana*

 

Foto: Gianfranco Betting (www.jetsite.com.br)

Poltrona do meio da classe turística de um apertado 707 da Varig. O corpo triturado por uma noite mal dormida. A secura da boca e a ressaca do novo. Que delícia. Ceu azul, razão de descida rápida, curva a esquerda, flaps 11, 21, trem de pouso baixado, travado, flaps 26. Lá em baixo um presépio. Casas arrumadinhas, perfiladas em ruazinhas limpas e bem traçadas. Long Island amanhecia preguiçosa naquela manhã de sábado quase primaveril. Era exatamente 11de abril de 1964.

No solo às 6.15 a.m. - livre taxi desembarque internacional. O contato com os brasileiros ia terminar. Vamos nos ver. Troca de telefones, promessas mis, apareça lá em casa. Os lugares comuns do povo cordial. Reatores desligados. Lá fora a cena era a mascação de chicle‚ com bafo de fumaça por causa do ar frio. Motoristas dos tratores, auxiliares, mecânicos, toca a exercitar as mandíbulas, nham, nham, nham, nham. Aqui dentro, uma zelosa funcionária da saúde pública percorria o corredor aspergindo o que me pareceu um inseticida contra passageiros oriundos de repúblicas de banana. Sorridente despejava good mornings a torto e a direito, o que levou uma chistosa senhora americana a constatar: ela só veio dar bom dia a todos...

Estávamos liberados para descer. Sim, descer, pois não havia ainda fingers para todo mundo. Brrrrrr. Que frio. A sensação era a de se entrar numa câmara frigorífica. Mas logo veio o aconchego dos longos corredores devidamente aquecidos por onde chegaríamos ao saguão da burocracia de praxe. No caminho, mais praticantes de exercícios mandibulares: nham, nham ,nham. Haja chiclete.

Controle de passaportes para mostrar com orgulho o "green card" recentemente conquistado. Tudo fácil, pois os inspetores também entoavam o nham nham nham dos Wrigley's da vida. Alfândega. Adivinha o que eu trazia ? Goiabada, lógico. O que é isto ? Ai,ai,ai, como vou explicar? O melhor que saiu foi um desajeitado " ... a type of Brazilian candy, er..., sweet stuff you know ?". Fui convincente. "OK, move on"...

Mais um brazuca chegando… "Big Apple" Noviorque, rumo ao meio-oeste. Indiana here I come...

Conhecendo a Greyhound – Port Authority

De avião não tem a menor graça. Por isso, e principalmente por falta de numerário, tive de pegar o velho e tradicional Greyhound, a "Cometa" dos EUA, rumo à Indianápolis, Indiana... Os ônibus saem da PortAuthority, uma baita estação rodoviária incrustrada em midtown Noviorque. O roteiro com 21 horas de viagem pela frente, incluía muitas paradas. Aí é que se começa a observar as diferenças culturais de um país. Ônibus super confortável, ar condicionado, aquecimento, motorista afável e, “guess what ?” mascando chiclé naturamente‚.

Primeira parada: Filadelfia, apenas uma hora e pouco de NYC. Bar de rodoviária, e eu com uma baita fome pois já passava e muito da hora do almoço. A pronúncia mais fácil era pedir logo um hot dog, então, vamos lá. Primeira preocupação: não voltar para o ônibus errado pois eram todos absolutamente iguais. Lembrei-me então que o destino final do meu ônibus era Saint Louis. Primeira descoberta: os ônibus nos EUA são usados para viagens curtas. O passageiro ao meu lado de NYC a Fila já não estava no ônibus no trecho seguinte, e assim em quase todas as paradas.

Próxima parada: Pittsburgh. Primeiro “fora”. Vou comer sentado agora. Sentei-me esperando um garçon, garçonete, o que for. Após longos e angustiantes 120 segundos veio uma boa alma e disse: - “Senhor, aqui é uma cafeteria, you have to help yourself...” Corado de vergonha, achando que todo mundo estava me olhando, fui para a fila e ensaiei uma mudança de menu: “ a amboorger please”... “Beg your pardon “? “amboorger please”… Vendo que o gajo não iria entender mesmo, sapequei de volta o velho “hot dog”. Frustração… Teria que falar “a rembârguer please”...

Pennsylvania Turnpike e várias paradas rodoviárias. Em todas elas ia ligando a cobrar para meus anfitriões que iriam me buscar na rodoviária de Indianápolis. A dificuldade era entender o que a operadora falava do lado de lá... As primeiras conversas telefônicas foram bastante difíceis. De todo modo à noite consegui falar com Bloomington, Indiana, que viria a ser minha cidade nos próximos 5 anos !

(*) Sócio-Gerente da Allcomm Partners que viajou pela primeira vez aos EUA em pleno golpe de 64, aos 19 anos.


 

 

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